Trabalho desenvolvido na UESC é premiado em congresso internacional na Austrália

Uma pesquisa desenvolvida por pesquisadores da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) sobre o tráfico e a conservação de aves silvestres ganhou destaque internacional ao ser premiada durante um congresso realizado em Cairns, na Austrália. O artigo, de autoria do professor doutor Alexandre Schiavetti, foi apresentado no congresso da International Society of Ethnobiology (ISE), realizado entre 26 e 29 de julho deste ano.

Vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Zoologia (PPGZOO) da Uesc, Schiavetti é um dos autores do trabalho intitulado “Cativeiro de aves silvestres no semiárido brasileiro: conflitos em uma zona de amortecimento de área protegida” (Wild Bird Captivity in the Brazilian Semiarid Region: Conflicts in a Protected Area Buffer Zone).

O estudo é resultado de um projeto aprovado por meio de edital Fapesb/CNPq, na modalidade Projeto Universal. Também assinam o artigo o professor Ivã Barbosa Santos, ornitólogo e pesquisador do Instituto Multidisciplinar em Saúde (IMS) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Vitória da Conquista; o servidor técnico da Uesc Jorge Nassri; e o professor Ricardo Evangelista Fraga, que realizou pós-doutorado em Zoologia pela Uesc em 2023.

Pesquisa combate o tráfico de animais silvestres

O trabalho integra um projeto coordenado por Schiavetti e Ivã Barbosa Santos, desenvolvido desde 2019 em parceria com a Polícia Federal e a Universidade de Brasília (UnB). A iniciativa busca identificar e classificar animais silvestres apreendidos em operações contra o tráfico ilegal de fauna em áreas de conservação da Bahia.

Após o resgate e a avaliação, os animais são destinados à reintrodução em locais próximos às suas áreas de origem. A estratégia busca contribuir para a conservação das espécies e evitar impactos genéticos decorrentes da introdução de indivíduos fora de suas regiões naturais.

O projeto tem financiamento do Fundo Brasileiro para a Diversidade (Funbio) e da Fundação Rufford, além da participação do Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), em Vitória da Conquista. A unidade recebe animais resgatados em fiscalizações, entregues voluntariamente ou retirados de situações relacionadas ao tráfico, realizando procedimentos de atendimento, tratamento e reabilitação.

Segundo Alexandre Schiavetti, aves canoras, como papagaios, curiós e periquitos, além de jabutis, estão entre os animais mais frequentemente envolvidos no tráfico, conforme dados da Polícia Federal.

O pesquisador explica que o projeto atua em duas frentes principais de conservação. Uma delas é garantir que os animais sejam devolvidos a regiões próximas de seus locais de origem, preservando características genéticas e comportamentais das populações.

A outra está relacionada ao mapeamento da origem dos animais apreendidos. A partir desses dados, os pesquisadores conseguem identificar áreas com maior incidência de captura e fornecer informações que podem orientar ações de fiscalização e educação ambiental.

“Se eu consigo identificar que eu tenho mais indivíduos vindos do norte do Estado, significa que eu preciso fazer algum tipo de operação policial ou de uma operação educacional para aquela região, para diminuir a captura”, explicou Schiavetti.

Formação de pesquisadores para além da universidade

Para o professor, o projeto também demonstra como a pesquisa acadêmica pode ampliar as possibilidades profissionais dos estudantes da Uesc.

Schiavetti destaca que um dos doutorandos envolvidos na iniciativa concluiu a formação e, posteriormente, foi aprovado em concurso para atuar na Polícia Científica do Espírito Santo, em uma área relacionada ao trabalho desenvolvido no projeto em parceria com a Polícia Federal.

Na avaliação do pesquisador, a experiência amplia a atuação da pós-graduação em Zoologia e mostra que a formação acadêmica pode preparar profissionais para trabalhar também em órgãos de segurança pública, instituições científicas e outras áreas especializadas.

“Catividade por afeto”

Além do combate ao tráfico, o projeto também apresenta uma abordagem denominada pelos pesquisadores de “Catividade por afeto”. A proposta busca mudar a relação das pessoas com os animais silvestres, incentivando a presença das espécies próximas às residências, mas sem confiná-las em gaiolas.

A ideia é que moradores criem condições para atrair os animais para seus quintais e jardins, mantendo-os livres no ambiente natural.

Schiavetti defende que as ações de conservação também devem considerar quem recebe os animais, e não apenas quem captura ou transporta a fauna silvestre. Como exemplo, ele cita uma comunidade localizada na divisa da Bahia com o Piauí, onde moradores retiram ninhos de joão-de-barro e os levam para seus quintais, criando condições para que as aves voltem a construir seus ninhos no local.

A prática, segundo o professor, permite que as pessoas mantenham contato próximo com a fauna sem recorrer ao confinamento, transformando a relação com os animais e contribuindo para a preservação das espécies.

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