Bolsa acumula queda de 16,6% após eleição de Lula, com perdas de até 60% em ações

A reação do mercado financeiro à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva já provocou perdas expressivas na Bolsa brasileira. Em três pregões da semana, até quarta-feira (28), o Ibovespa acumulou queda de 16,6%, enquanto empresas de diferentes setores registraram desvalorizações ainda mais acentuadas. O movimento reflete a revisão das expectativas dos investidores sobre a economia, as contas públicas e os rumos da política monetária.

No pregão de quarta-feira, a queda de 2,68% do principal índice da Bolsa escondeu recuos mais intensos em ações específicas. A Casas Bahia perdeu 20%, enquanto Cosan recuou 12%, Cyrela caiu 11% e Cogna registrou baixa de 10%.

A pressão também alcançou segmentos tradicionalmente considerados mais defensivos. O índice financeiro IFNC caiu 4,76%, enquanto o indicador de empresas de energia elétrica, IEE, recuou 3%. A AXIA Energia perdeu 5,2% no dia.

Empresas acumulam perdas de até 60%

O impacto fica ainda mais evidente quando analisado individualmente. Desde o período eleitoral, a Vamos, do grupo Simpar, acumula desvalorização de 60% em valor de mercado. Magazine Luiza perdeu 59%, Cosan recuou 55% e Hapvida caiu 52%.

Na sequência, C&A e Cyrela registraram perdas de 50%, enquanto MRV&Co recuou 48%. Localiza e Assaí acumulam quedas de 43%.

Entre os segmentos da Bolsa, o índice imobiliário IMOB lidera as perdas desde domingo, com recuo de 33,6%. O índice de small caps, que reúne empresas de menor capitalização, caiu 30%. Já o indicador de consumo, ICON, perdeu 28,5%, enquanto o financeiro recuou 26,3% e o de energia elétrica, 19%.

O tamanho das perdas também aparece no valor total das companhias negociadas. Desde o último pregão antes do segundo turno até o fechamento de quarta-feira (28), a Bolsa brasileira perdeu R$ 873 bilhões em valor de mercado.

Inflação e juros aumentam a preocupação

Além do resultado eleitoral, as perspectivas para a inflação e os juros passaram a pesar sobre as decisões dos investidores. O BTG Pactual revisou para cima suas projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), elevando a estimativa para 2027 de 4,8% para 5,9%. Para 2026, a previsão passou de 5,3% para 5,4%.

A revisão reforçou as preocupações com a possibilidade de o Banco Central interromper o ciclo de redução da taxa básica de juros já na próxima reunião. Caso os juros permaneçam elevados por mais tempo, empresas com alto endividamento tendem a enfrentar condições mais difíceis de financiamento, o que pode pressionar seus resultados e suas ações.

A falta de sinais claros de ajuste fiscal também aparece entre as preocupações do mercado. Analistas avaliam que a trajetória das contas públicas, as medidas econômicas esperadas para os próximos anos e os compromissos assumidos durante a campanha podem influenciar a percepção de risco dos investidores.

Incerteza política amplia o cenário de risco

O ambiente político também adicionou incertezas ao mercado. A movimentação de Flávio Bolsonaro em direção aos Estados Unidos, acompanhada de manifestações sobre o resultado eleitoral e de agradecimentos ao presidente norte-americano Donald Trump, foi apontada por um gestor como um possível fator adicional de preocupação.

Na avaliação desse profissional, eventuais medidas de pressão dos Estados Unidos contra o Brasil, incluindo sanções, poderiam atingir especialmente o setor bancário. Trata-se, porém, de um cenário hipotético, e não de uma medida confirmada.

Outro ponto de atenção é o comportamento dos fundos de investimento. Parte dos gestores havia montado posições apostando em uma vitória de Flávio Bolsonaro, e a derrota dessa expectativa pode ter ampliado as perdas. Com resultados pressionados, alguns fundos também podem precisar vender ativos para atender a pedidos de resgate, aumentando a pressão sobre as cotações.

Esse movimento ainda não significa, necessariamente, que uma nova onda de vendas já esteja em curso. O risco apontado por profissionais do mercado é que a necessidade de levantar recursos provoque novas quedas mesmo sem o surgimento de notícias negativas adicionais.

Aposta eleitoral e reação do mercado

O ex-analista do UBS-BB Giuliano Ajeje avaliou, em publicação no LinkedIn, que a intensidade da reação indica que muitos investidores estavam pouco protegidos contra um resultado diferente daquele esperado.

A leitura é de que parte do mercado concentrou suas apostas em uma vitória de Flávio Bolsonaro, atribuindo probabilidade elevada a esse cenário. Com a reeleição de Lula, posições montadas com base nessa expectativa precisaram ser revistas, contribuindo para a volatilidade.

O episódio expõe um risco recorrente em períodos eleitorais: quando muitos investidores apostam no mesmo resultado, uma surpresa pode provocar movimentos bruscos de preços.

A queda acumulada, portanto, vai além de uma reação pontual ao resultado das urnas. As incertezas fiscais, as projeções de inflação, o comportamento esperado dos juros e a necessidade de ajuste das posições dos fundos compõem um quadro mais amplo de reavaliação do risco brasileiro.

Embora a desvalorização tenha tornado diversas ações mais baratas em relação aos preços anteriores, isso não significa que o mercado tenha concluído seu processo de ajuste. A continuidade da pressão dependerá, entre outros fatores, dos sinais econômicos do governo, das decisões do Banco Central e da capacidade dos investidores de absorver as perdas recentes.

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