Coluna | AK
Reflexões sobre liberdade feminina, dignidade humana e os limites da cultura da produtividade extrema
Durante décadas, as mulheres conquistaram direitos fundamentais: o direito ao voto, à participação política, à presença nos espaços de decisão, ao trabalho, ao empreendedorismo e à autonomia sobre a própria vida. Esses são direitos inegociáveis.
Foram conquistas importantes e transformadoras. A mulher saiu das margens e passou a ocupar universidades, empresas, instituições, governos e mesas de negociação. Esse movimento ampliou a democracia e fortaleceu a sociedade.
Mas, em algum momento desse processo, uma ideia começou a se instalar de forma quase silenciosa: a de que liberdade feminina seria, necessariamente, sinônimo de produtividade extrema.
Ser mulher não é viver exausta para provar independência.
Como se a independência da mulher significasse, obrigatoriamente, tornar-se uma máquina de trabalho.
E é aqui que uma reflexão precisa ser feita.
Reconhecer as conquistas históricas das mulheres não significa deixar de avaliar os modelos de vida que se estabeleceram ao longo desse caminho. Liberdade não pode significar trocar um tipo de prisão por outro.
Ser mulher não é ser reduzida a uma lógica produtivista excessiva.
A mulher é livre com saia, com vestido ou de calça. Com bota, scarpin ou chinelo. Dentro de casa ou fora dela. É livre cozinhando, pintando, bordando, fazendo arte, dançando. É livre sendo política, genitora, empreendedora, trabalhadora, pesquisadora, gestora ou criadora.
É livre onde quer que esteja. Liberdade feminina não é produtividade extrema. Liberdade é poder escolher.
Escolher trabalhar muito ou trabalhar menos. Empreender ou dedicar-se ao cuidado. Fazer arte, estudar, criar, misturar caminhos ou reinventar a própria trajetória.
Mas dizer que ser uma máquina de trabalho é ser mulher? Isso não.
Associar as mulheres a máquinas de desempenho excessivo naturaliza uma forma de abuso que se tornou comum em uma sociedade que valoriza a produtividade e negligencia o tempo humano.
No fundo, estamos falando de algo simples: mulheres são pessoas humanas.
Dormir bem. Cuidar do corpo. Cultivar relações. Cuidar de pessoas, de plantas, de animais, de filhos, de pais, de amigos. Ter tempo para a arte, para o silêncio, para a contemplação, para a convivência.
Nada disso é falta de ambição.
Isso é vida.
Vida digna.
Não podemos sonegar a nossa sensibilidade para atender expectativas externas. Viver a partir da própria essência é uma condição básica de existência humana.
Cada mulher deve ter o direito de definir o que significa viver bem.
Mas mulheres não são máquinas.
Mulheres são pessoas humanas.
Parece óbvio.
Ainda assim, em uma sociedade que valoriza apenas o rendimento, o óbvio precisa ser lembrado.
Sensibilidade, singularidade e dignidade não são fragilidades. São dimensões da condição humana.
Nós, mulheres, merecemos uma vida digna, autêntica e leve.
Anna Karenina é poetisa, jornalista e advogada, com atuação em assessoria de imprensa e intermediação de negócios estratégicos.


