A União dos Municípios da Bahia (UPB) e o Ministério Público do Estado (MP-BA) passaram a atuar de forma mais direta diante da escalada dos cachês pagos a artistas nas festas juninas. A iniciativa, que ficou conhecida como “São João sem milhão”, mira contratações consideradas fora da realidade financeira dos municípios e busca frear o que gestores já classificam como uma farra com dinheiro público.
O foco da atuação está nas negociações concentradas em poucos escritórios que dominam a agenda de artistas de grande apelo popular. Segundo a UPB, em alguns casos essas negociações se assemelham a práticas de cartel, com controle de valores e redução da concorrência, o que acaba empurrando os cachês para patamares milionários e limitando a margem de negociação das prefeituras.
O debate ganhou força após prefeitos baianos começarem a se manifestar publicamente. O prefeito de Conceição da Feira, João de Furão, usou as redes sociais para criticar os preços cobrados por artistas. “Cultura sim. Abuso de dinheiro público não. R$ 1,5 milhão por show é falta de limite”, afirmou. Segundo ele, atrações que há dois anos custavam cerca de R$ 200 mil hoje chegam a cobrar até R$ 600 mil, enquanto nomes mais populares já pedem entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão por apresentação.
Antes disso, o prefeito de Jequié, Zé Cocá, já havia levantado o tema, o que acabou unindo gestores de diferentes regiões do estado. Entre os argumentos apresentados está o impacto das emendas parlamentares, que teriam inflado os cachês ao longo dos últimos anos e elevado o padrão de preços também para municípios que não contam com esse tipo de recurso.
Dados do Portal da Transparência reforçam o alerta. Entre 2022 e 2025, o valor pago para a contratação de Wesley Safadão saltou de R$ 600 mil para R$ 1,1 milhão em cidades do interior baiano, um aumento superior a 80% em poucos anos. Casos como esse alimentam questionamentos sobre a lógica dos reajustes sucessivos e a sustentabilidade desse modelo.
Outro ponto levantado por gestores e especialistas é a descaracterização da festa. Muitas das atrações que recebem os maiores cachês não têm ligação direta com o forró, ritmo tradicional do São João. Ao mesmo tempo, artistas regionais perdem espaço, enquanto casas de shows e eventos privados deixaram de funcionar por não conseguirem competir com contratações bancadas pelo poder público.
Embora iniciativas como o Painel da Transparência e o Selo da Transparência dos Festejos Juninos ampliem o acesso às informações, a avaliação de prefeitos e críticos é que a simples divulgação dos gastos não basta. A defesa agora é por medidas concretas, como a criação de um teto para cachês pagos com recursos públicos. Entre as propostas em debate está a fixação de um limite que impeça valores considerados excessivos.
Em 2025, os gastos das prefeituras baianas com festas juninas ultrapassaram R$ 600 milhões, somando cachês, estruturas, som, iluminação e logística. Para a UPB, é possível realizar festas grandiosas, movimentar o comércio local e manter viva a tradição junina, mas com equilíbrio fiscal e respeito ao dinheiro público.
A atuação conjunta de MP-BA e UPB não mira o fim do São João, mas o modelo de contratações que se consolidou nos últimos anos. O recado dos gestores é claro: a festa continua, mas a escalada dos cachês milionários entrou no centro do debate e começa a ser tratada como um problema que pode comprometer o futuro financeiro de muitos municípios.
*imagem meramente ilustrativa

