“Quando a crise do cacau for totalmente resolvida, paramos as manifestações”, afirma presidente da ANPC

Por Anna Karenina MTB-BA 4085, com exclusividade para a Folha da Praia.

Acontece nesta sexta-feira, 27, às 9 horas, em Ilhéus, uma manifestação de enfrentamento à crise do cacau, impactando mais de 100 mil famílias no país, convocada pela Associação Nacional dos Produtores de Cacau (ANPC). Em entrevista exclusiva à Folha da Praia, a presidente da ANPC, Vanuza Barroso, declarou que os atos seguirão até a crise ser completamente resolvida.

Em um momento em que articulações entre esferas do poder executivo resultaram na recente publicação da portaria com o Despacho Decisório nº 456/2026 do Ministério da Agricultura, que determinou imediatamente, ainda que de forma temporária, a suspensão da importação de amêndoas fermentadas de cacau da República da Costa do Marfim, por risco fitossanitário, nesta última terça-feira, 26, a mobilização segue mantida pela ANPC com base em medidas capazes de atacar o problema na raiz.

Segundo o governo baiano, a suspensão da importação do cacau africano sob a coordenação do governador Jerônimo Rodrigues com o governo federal integra um conjunto de ações estratégicas e um processo mais amplo de organização do setor para a proteção da cacauicultura.

Nas redes sociais, o Ministro Rui Costa, da Casa Civil, declarou que a próxima etapa inclui a análise do mercado interno e da atuação das indústrias processadoras. O senador Jaques Wagner criticou a atuação das chamadas traders, empresas intermediárias do setor, acusando-as de pressionar os preços para baixo.

As demandas dos produtores foram ouvidas pelo governo baiano em audiências que incluíram a ANPC no início de fevereiro deste ano, com o encaminhamento da criação da Comissão para Discussões Iniciais da Cacauicultura em que participa a Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia (FAEB), a União dos Produtores de Cacau, a Câmara Setorial do Cacau, a CEPLAC e a Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), da Secretaria estadual de Desenvolvimento Rural (SDR).

Ao ser perguntada porque a ANPC não tem participado das ações governamentais junto aos diversos setores para as diligências de enfrentamento à crise, a presidente Vanuza Barroso, declarou:

“Na reunião de trabalho com o governador, pediram para a gente parar de se manifestar. Por essa razão, houve uma retaliação. Temos a certeza absoluta de que não fomos convidados para fazer parte da comitiva por que fomos contra essa recomendação de paralisar as manifestações. Estamos nos manifestando e iremos nos manifestar. Quando a crise resolver, a gente para. Quando se abre o diálogo, é preciso recuar quando a pauta é atendida. O preço do cacau, subiu? Não. Atendeu nossos pedidos? Não. Depois que isso for resolvido, a gente para”, disse.

A ANPC declarou ser apartidária. “O nosso partido é o cacau brasileiro. Dialogamos com políticos de centro, da direita e da esquerda. Nossa pauta não é partidária, de oposição ou a favor de ‘a’, de ‘b’, ou de ‘c’, mas sim favorável ao produtor de cacau. O que queremos é apenas que o produtor de cacau seja respeitado”.

A associação diz que alertou autoridades desde 2022 e cobra providências diante da crise do cacau

A ANPC afirma que vem alertando autoridades sobre os riscos enfrentados pela cadeia produtiva desde 2022, ano de criação da associação. Segundo a presidente da associação, naquele período foi elaborado um manifesto com as principais reivindicações do setor e entregue às autoridades.

De acordo com a dirigente, ao longo dos últimos anos a ANPC realizou uma série de ações institucionais, incluindo reuniões e audiências na Câmara dos Deputados, no Senado Federal, nas Assembleias Legislativas da Bahia e do Espírito Santo, além de agendas com representantes do Governo da Bahia e do Governo do Pará. “As autoridades não podem dizer que não sabiam”, declarou.

Vanuza sustenta que, apesar das mobilizações e da articulação política realizada desde a fundação da entidade, as reivindicações não foram atendidas. “Chegamos ao extremo. Não tem política pública, não tem amparo nenhum”, afirmou.

Dificuldades para atuação jurídica e denúncia de desequilíbrio na cadeia

A presidente também destacou as dificuldades estruturais enfrentadas pela associação, especialmente no campo jurídico. Segundo ela, a ANPC não dispõe de recursos financeiros suficientes para custear ações mais robustas junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), nem para manter acompanhamento jurídico permanente.

“É muito difícil equilibrar esse jogo de interesses. O lobby da indústria é gigante”, declarou, ao defender que a categoria precisa de maiores fontes de custeios para fortalecer a representação institucional.

Manifestações e interdições

Sobre as manifestações recentes, incluindo interdições na BR-101, a presidente afirmou que a ANPC tem liderado mobilizações de enfrentamento à crise, com exceção de atos ocorridos no assentamento Frei Vantuí e em Ubaitaba, que, segundo ela, não tiveram conhecimento prévio.

Vanuza disse que a associação não orienta práticas como queima de pneus ou ações que provoquem danos ambientais ou ao patrimônio público. No entanto, reconhece que o ambiente entre os produtores é de forte tensão.

“Estamos diante de uma pandemia do cacau sem precedentes. Os ânimos estão exaltados porque a maioria são pequenos produtores que vivem diretamente do que produzem”, afirmou.

Ela sustenta que as mobilizações são legítimas, desde que ocorram de forma pacífica e ordeira, e argumenta que “as autoridades não deixaram outro caminho”.

Previsão de safra e planejamento do setor

Em relação previsão de safra, a presidente afirmou que a desarticulação da previsão oficial de safra, ocorrida durante o governo federal anterior sob a atuação da então Ministra Teresa Cristina, comprometeu a operacionalização do mecanismo. Segundo ela, a categoria está carente de dados técnicos atualizados que deem sustentação à política e permitam maior previsibilidade de mercado.

Política de preço mínimo

Em relação à política de preço mínimo, a dirigente afirmou que, embora o instrumento exista formalmente, sua operacionalização enfrenta entraves. Segundo ela, produtores teriam dificuldades práticas para acessar o mecanismo, além de questionarem se os valores estabelecidos refletem o real custo de produção.

A presidente sustenta que, sem ajustes estruturais, a política não tem sido suficiente para proteger os agricultores diante da atual crise.

Vanuza também declarou que a lavoura cacaueira vem sofrendo processo de sucateamento ao longo das décadas. Ao mesmo tempo, afirmou que as medidas ainda não foram suficientes para enfrentar a crise.

“Não queremos ser o pai da criança, queremos solução”

Apesar do tom crítico, a dirigente afirmou que a associação não pretende assumir protagonismo político, mas cobrar providências.

“A gente não quer ser o pai da criança. A gente só quer que alguém resolva. Não queremos crise, queremos solução”, declarou.

Ela disse ainda que confia que uma providência será tomada pelas autoridades. “Tem que haver uma solução. A gente não pode ficar assim. Tomara a Deus que dê tudo certo.”

Segundo a presidente, a ANPC permanece ao lado dos produtores e continuará mobilizada até que haja respostas concretas para a categoria.

A reportagem procurou o Governo do Estado da Bahia para se manifestar sobre os pontos levantados pela ANPC, especialmente quanto à interlocução com a entidade. A assessoria informou que a demanda já foi recebida e que a resposta oficial está em elaboração. O espaço permanece aberto para a manifestação do Governo, que será publicada assim que encaminhada à redação.

 

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