Psicanálise da viabilidade: por que Caiado e o PSD mudam o jogo de 2026

Durante quase uma década, o debate político brasileiro foi organizado por uma falsa fatalidade: a ideia de que a Presidência da República estaria condenada a ser ocupada por representantes dos extremos. À direita, figuras que se alimentam do conflito permanente; à esquerda, lideranças sustentadas por capital simbólico acumulado, mas cada vez mais dissociadas da sensação cotidiana de rumo e ordem. Esse enquadramento produziu um eleitorado emocionalmente exaurido, que vota mais para se proteger do outro polo do que para afirmar um projeto de país.

Esse eleitor passou a organizar sua decisão de voto a partir de um afeto central: o desamparo. Violência cotidiana, erosão de referências morais, descrédito institucional e sensação persistente de desordem produziram um sujeito político fragilizado, mais propenso a buscar proteção do que a deliberar racionalmente. Esse estado psíquico coletivo foi o terreno fértil da polarização.

Do ponto de vista psicanalítico, o fenômeno é conhecido. Em contextos de anomia social, emerge a busca por um líder que encarne a fantasia de um pai soberano — aquele que promete restaurar a ordem e oferecer proteção total, mesmo à custa da mediação institucional. Em 2018, essa lógica foi decisiva. Jair Bolsonaro não venceu por consistência programática, mas por ocupar, no imaginário de parcela expressiva do eleitorado, a posição do “pequeno grande homem”, nos termos formulados por Adorno.

O que mudou desde então não foi o desaparecimento do desamparo. Ele persiste. O que mudou foi a tolerância subjetiva ao custo dessa fantasia. A experiência concreta da instabilidade política e da exaustão emocional produziu um eleitor menos disposto a sustentar apostas baseadas exclusivamente na onipotência do líder. Há sinais claros de um esgotamento do registro imaginário da política, aquele que depende da identificação com um salvador.

É nesse contexto que a entrada de Ronaldo Caiado no PSD deve ser lida. Não como gesto individual, mas como evento de estrutura. Em política — e sobretudo na psicologia do voto — o que importa não é apenas o que é desejável, mas o que parece viável. Viabilidade é uma construção psíquica antes de ser uma equação eleitoral.

Esse dado impõe um desafio direto às estratégias de campanha. Em 2026, tanto nas disputas presidenciais quanto nas estaduais, não bastará calibrar discurso, segmentar públicos ou ajustar slogans. Afetos latentes, expectativas difusas e zonas de ambivalência — muitas vezes invisíveis em abordagens tradicionais — passam a ser determinantes na conversão do voto.

Esse deslocamento impõe uma inflexão sutil na forma de pensar campanhas. Em 2026, o centro da disputa não estará apenas na mensagem emitida, mas na capacidade de reconhecer como o eleitor organiza internamente noções de risco, segurança e expectativa de governo. Estratégias que tratam o voto como resposta direta a estímulos racionais tendem a falhar diante de um eleitor que decide antes de saber explicar por quê.

O que se desenha é a possibilidade de uma mudança de posição subjetiva do eleitor: da busca por um pai idealizado para a reativação da função paterna no campo político.

Enquanto a figura paterna imaginária promete proteção total, a função paterna simbólica organiza limites, regras e previsibilidade. Ela não elimina o conflito, mas o contém. Não oferece salvação, mas estrutura.

As pesquisas qualitativas captam esse deslocamento com clareza. O eleitor segue valorizando firmeza, autoridade e clareza moral — especialmente nas pautas de segurança pública e costumes —, mas rejeita crescentemente a lógica do “tudo ou nada”. Ele não busca mais um pai que grite; busca um Estado que funcione. A entrada de Caiado no PSD reduz a sensação de risco porque desloca o investimento do indivíduo para um arranjo institucional: um partido com capilaridade nacional, lideranças testadas e capacidade real de governar.

Esse ponto ajuda a compreender por que, em 2022, Simone Tebet — embora amplamente apreciada — não conseguiu converter apreço em voto. Faltava ali a dimensão da transferência de eficácia. O eleitor precisa acreditar que seu investimento terá consequência. Ninguém quer “perder” voto.

O cenário atual é distinto. A centro-direita, especialmente a partir do PSD, começa a oferecer algo raro no debate recente: continência. Continência no sentido psicanalítico — a capacidade de acolher a angústia difusa do eleitor sem devolvê-la sob a forma de violência simbólica. Segurança pública deixa de ser promessa de confronto e passa a ser promessa de ordem. A pauta de costumes abandona o registro da guerra cultural e se reposiciona como defesa das redes primárias de pertencimento, fundamentais para a estabilidade das famílias comuns.

Para quem pensa estratégia eleitoral, esse movimento redefine o critério de sucesso. Campanhas que permanecerem ancoradas apenas em métricas declarativas, tracking de opinião ou leitura literal do discurso público tendem a errar o tempo do eleitor. O jogo passa a exigir interpretação, escuta qualificada e capacidade de traduzir mal-estares sociais em arquitetura narrativa consistente — sob pena de falar para um eleitor que já mudou de lugar.

O governo Lula, embora preserve capital simbólico e aprovação pessoal, enfrenta uma clivagem relevante: a dissociação entre o afeto pelo líder e a percepção de direção do país. Essa dissonância abre espaço para uma candidatura de centro-direita que não se apresente como negação do passado, mas como reorganização simbólica do futuro.

A polarização deixou de ser apenas conflito político e passou a ser percebida como fator ativo de deterioração da vida cotidiana. É nesse deslocamento que se reabre o espaço da chamada terceira via — um espaço que sempre existiu, mas que raramente encontrou corpo, timing e credibilidade simultaneamente.

A movimentação conduzida por Gilberto Kassab confere à centro-direita densidade estrutural. O PSD não oferece apenas um nome, mas um conjunto coerente de lideranças com baixa rejeição, forte lastro administrativo e capilaridade nacional. Caiado, Ratinho Jr. e Eduardo Leite deixam de ser candidaturas isoladas para se tornarem variações de um mesmo modelo de governança, reduzindo o risco percebido da escolha.

O ponto decisivo é este: a política muda quando o impossível começa a parecer possível. Não é a certeza da vitória que move o eleitor, mas a percepção de que existe um caminho real entre o desejo e o resultado. Ao transformar a terceira via de abstração elitizada em hipótese concreta de poder, o PSD altera o campo das escolhas possíveis.

Defendo desde 2018 que esse espaço sempre existiu. Faltava o candidato. Faltava o contexto. Faltava, sobretudo, o momento psíquico em que o eleitor estivesse disposto a abrir mão da fantasia de salvação para aceitar o trabalho mais árduo da construção institucional. A entrada de Ronaldo Caiado no PSD não garante vitória, mas inaugura algo talvez mais decisivo: a possibilidade simbólica de vencer sem radicalizar. Quando isso acontece, o inconsciente coletivo se reorganiza — e é aí que as grandes viradas se tornam possíveis.

Karin Koshima é psicóloga, psicanalista e mestre em Políticas Públicas (UFBA). Com mais de 20 anos de experiência em marketing político e comportamento eleitoral, é Diretora Executiva da K2 Pesquisa & Estratégia, empresa que é referência em inteligência estratégica e pesquisas qualitativas. Sua atuação é marcada pela especialização em pesquisas qualitativas, utilizando a escuta clínica para decifrar o subtexto das dinâmicas coletivas e transformar dados em narrativas de gestão.

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