A música popular brasileira ganha um novo encontro entre territórios, memórias e tradições com o lançamento do projeto Conexão Bahia-Pará, parceria entre a banda ilheense Mulheres em Domínio Público e o músico, pesquisador e produtor paraense Félix Robatto. O trabalho aproxima sonoridades da Bahia e da Amazônia em duas releituras que homenageiam a compositora Chiquinha Gonzaga e os trabalhadores das lavouras de cacau.
Disponíveis nas principais plataformas de streaming, as faixas apresentam uma proposta que ultrapassa fronteiras geográficas. Em “Ó Abre Alas/Corta-jaca”, a clássica obra de Chiquinha Gonzaga ganha uma nova leitura ao unir guitarrada paraense, carimbó, percussões afro-baianas e elementos da música popular brasileira. Já “Cacau é boa lavra” resgata um canto tradicional entoado por trabalhadores das roças cacaueiras do sul da Bahia, agora enriquecido com instrumentos e ritmos amazônicos.
O resultado estabelece uma conexão simbólica entre a Mata Atlântica e a Amazônia, aproximando justamente os dois maiores estados produtores de cacau do país por meio da música e da preservação da cultura popular.
Criada em Ilhéus, em 2011, a banda Mulheres em Domínio Público construiu sua trajetória pesquisando e reinterpretando manifestações culturais ligadas ao universo da lavoura cacaueira. Os cantos de trabalho, antes utilizados para acompanhar atividades como a colheita, a quebra e a pisa do cacau, passaram a integrar arranjos contemporâneos, ao lado de repertórios de lavadeiras e carpideiras. O reconhecimento desse trabalho levou o grupo, em 2024, a colaborar com a pesquisa musical utilizada na produção do remake da novela Renascer, da TV Globo.
Segundo a cantora e fundadora da banda, Tacila Mendes, a parceria nasceu após anos de admiração pelo trabalho desenvolvido por Félix Robatto. A aproximação ocorreu durante a pandemia e foi consolidada em uma viagem ao Pará, onde ela conheceu de perto a força da cena musical amazônica. Em 2025, o projeto foi contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc, permitindo que a produção fosse realizada de forma colaborativa entre Ilhéus e Belém, com gravações à distância e produção musical desenvolvida no estúdio de Robatto.
Também integrante e fundadora da banda, Cris Passos destaca que o processo representou um mergulho nas raízes culturais compartilhadas pelos dois estados. Para ela, a união entre Bahia e Pará resultou em um intercâmbio sonoro marcado pela valorização da ancestralidade, da identidade cultural e do respeito entre diferentes tradições musicais.

Responsável pela produção musical, Félix Robatto é um dos principais nomes da chamada “guitarrada progressiva”, vertente que mistura ritmos amazônicos, influências latino-americanas e experimentações contemporâneas. O artista também assina a produção do álbum Tecnoshow, de Gaby Amarantos, vencedor do Grammy Latino de 2023 na categoria de Melhor Álbum de Música Raiz em Língua Portuguesa.
O músico afirma que aceitou o convite motivado não apenas pelo desafio artístico, mas também por sua ligação familiar com a Bahia. Segundo ele, trabalhar sobre o universo do cacau — elemento presente na história dos dois estados — tornou a experiência uma oportunidade de pesquisa e troca cultural, aproximando ritmos, sotaques e referências musicais.
Além das gravações, o projeto também apresenta dois videoclipes. O primeiro, de “Ó Abre Alas/Corta-jaca”, destaca mulheres que romperam barreiras ao longo da história e evidencia a potência artística das integrantes da banda. Já “Cacau é boa lavra” percorre imagens das plantações de cacau até sua transformação em chocolate, reforçando a relação entre cultura, território e memória. Ambos foram dirigidos por Tacila Mendes, com fotografia e edição assinadas pela artista visual Mariana Cabral.
A produção das releituras recebeu apoio da Prefeitura de Ilhéus, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, com recursos do Sistema Nacional de Cultura e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, do Ministério da Cultura.
Com o Conexão Bahia-Pará, a música reafirma sua capacidade de construir pontes entre diferentes regiões brasileiras, preservando patrimônios culturais e renovando tradições que continuam encontrando novos caminhos para permanecer vivas.

