No último domingo (28), a comunidade Tupinambá de Olivença voltou a percorrer o caminho entre a Praça de Olivença e o rio Cururupe. A caminhada, marcada por cantos, maracás e momentos de reflexão, é uma tradição que homenageia os ancestrais mortos no episódio conhecido pelos livros como Batalha dos Nadadores.
Em 1559, sob ordens do governador-geral Mem de Sá, tropas coloniais massacraram centenas de Tupinambá, deixando quilômetros de corpos pela orla e tingindo de sangue as águas do Cururupe.
Entre os participantes, Andréia Esteffany, mulher indígena Tupinambá, explica que setembro é um mês de reafirmação e memória. “É o nosso mês festivo, quando trabalhamos a nossa história. Este ano tivemos a Mostra Cultural na Praça de Olivença, junto com a feira de microempreendedores indígenas do Sebrae”, conta. Ela descreve a peregrinação como um ato de resistência: “Nós caminhamos lembrando dos nossos ancestrais que tombaram na luta. As águas do Cururupe ficaram vermelhas de sangue indígena, sangue Tupinambá.”
A tradição é uma homenagem ao passado. Para Andréia, a caminhada é também um compromisso com o presente e o futuro. “A gente continua lutando, não esquece daqueles que deram a vida para que estivéssemos aqui hoje. Caminhamos para que nossas crianças e jovens conheçam essa história e entendam que ainda estamos aqui, firmes, com a memória e a luta dos nossos ancestrais.”
Além do massacre do século XVI, a memória coletiva Tupinambá guarda outras feridas, como a Revolta do Caboclo Marcelino, em 1929, e a violência de 1937, quando novas mortes marcaram a tentativa de recuperar terras tradicionais. Mesmo diante de séculos de violência e da demarcação tardia de seus territórios, o povo Tupinambá reafirma sua existência a cada passo da peregrinação, transformando dor em resistência e memória em força para continuar a caminhar.


