Destituído da presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em meio a uma crise institucional, Ednaldo Rodrigues pode ter perdido o cargo — mas não o controle. Ao menos, não na Bahia. Nos bastidores da Federação Bahiana de Futebol (FBF), o ex-mandatário ainda dita as regras, mesmo sem ocupar formalmente qualquer posto. Seu instrumento de influência? Um círculo estreito de familiares e aliados estratégicos cuidadosamente posicionados ao longo de quase duas décadas de gestão.
A FBF virou extensão familiar?
Durante os 18 anos em que presidiu a FBF, Ednaldo estruturou uma teia de confiança e parentesco que continua operando com força. Sua cunhada, Taíse Galvão — irmã de sua esposa, Rita — é diretora técnica da entidade e coordena competições como o Campeonato Baiano e o Intermunicipal. Taíse, por sua vez, é casada com Ricardo Lima, atual presidente da federação desde 2018 e aliado direto de Ednaldo.
A sucessão na FBF, portanto, não representou uma ruptura, mas uma continuidade. Patrícia Galvão, outra cunhada, atua como secretária executiva da presidência, fortalecendo a presença familiar. O que se vê, segundo críticos, é uma federação transformada em projeto de poder pessoal — um “clã do futebol” que ainda influencia decisões locais e até nacionais.
Favores cruzados e salários milionários
Durante sua reeleição por aclamação na CBF — semanas antes da queda —, Ednaldo aprovou o aumento dos salários dos presidentes das federações estaduais de R$ 50 mil para R$ 215 mil mensais. Entre os beneficiados, naturalmente, estava Ricardo Lima. A decisão, revelada pela Revista Piauí, levantou suspeitas sobre a utilização da presidência da CBF como ferramenta de barganha política.
Além disso, Ednaldo foi alvo de denúncias de uso indevido de recursos da CBF para bancar viagens de luxo para familiares, incluindo estadias no Grand Hyatt e passagens pagas em períodos como o Carnaval. Taíse Galvão e Rafaela Brandt, filha do dirigente, aparecem entre os nomes beneficiados.
A queda na CBF… e a permanência nos bastidores
O afastamento de Ednaldo da CBF — consumado com a nomeação de Fernando Sarney como interventor — foi apenas o ápice de uma crise que já vinha se arrastando. Internamente, denúncias de assédio moral, decisões centralizadoras e perda de apoio jurídico minaram seu poder. Nem mesmo o apoio de ministros como Gilmar Mendes foi suficiente para contê-lo.
Mas será que sua influência acabou?
A FBF declarou apoio ao atual presidente interino da CBF, Samir Xaud, visto como uma figura de renovação. Para alguns, isso indicaria independência da entidade baiana. Para outros, apenas mais um movimento tático de Ednaldo — que segue usando sua base na Bahia como trampolim para futuras articulações no futebol nacional.
A pergunta que fica
Com familiares em cargos estratégicos e aliados em posições-chave, é possível afirmar que Ednaldo Rodrigues realmente saiu de cena? Ou estamos diante de um modelo de poder que resiste às trocas formais de cargo?
A Federação Bahiana de Futebol, hoje, parece menos uma entidade independente e mais um legado político pessoal. Resta saber se o futebol baiano — e o brasileiro — conseguirá sair da sombra de seus antigos mandatários, ou se seguirá sendo governado pelos mesmos rostos, apenas de posições diferentes.


