O Hospital Materno-Infantil Dr. Joaquim Sampaio, em Ilhéus, transformou a campanha Maio Furta-Cor em um espaço de debate sobre um tema ainda cercado de silêncio: o sofrimento emocional enfrentado por mulheres durante a gestação de alto risco. A unidade, administrada pela Fundação Estatal Saúde da Família (FESF-SUS), promoveu nesta quarta-feira (27) uma roda de conversa voltada à saúde mental de gestantes e puérperas atendidas no ambulatório da instituição.
A iniciativa reuniu profissionais de saúde e pacientes para discutir ansiedade, medo, depressão perinatal e os impactos emocionais provocados por uma gravidez marcada por complicações clínicas. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que uma em cada cinco mulheres desenvolve algum transtorno mental entre o início da gestação e o primeiro ano de vida do bebê, sendo a ansiedade o quadro mais recorrente — e também um dos menos diagnosticados.
Durante o encontro, a psicóloga Danielle Mattos destacou que os sintomas emocionais costumam se manifestar também fisicamente, com episódios de taquicardia, tensão muscular, falta de ar e tonturas. Segundo ela, a ausência de uma rede de apoio amplia o risco de agravamento dos quadros emocionais durante a gravidez.
“A presença do pai, do companheiro ou de familiares faz diferença direta no processo de cuidado e acolhimento dessas mulheres”, ressaltou.
A coordenadora do Núcleo de Educação Permanente do hospital, enfermeira Ayalla Campos, lembrou que o Maio Furta-Cor surgiu em 2019 e ganhou projeção nacional dois anos depois, se consolidando como um movimento permanente de conscientização sobre saúde mental materna.
Os relatos das pacientes reforçaram a dimensão emocional enfrentada pelas gestantes atendidas na unidade. A paciente Jucima Gonçalves, que convive com hipertensão e diabetes, revelou carregar traumas após três abortos anteriores. Na quarta gestação, já com 32 semanas, ela relata que o medo ainda acompanha cada etapa da gravidez.
“Qualquer mudança no corpo vira um alerta. Às vezes sinto uma dor e já penso que pode acontecer tudo de novo”, contou. Segundo ela, o acompanhamento psicológico e o suporte da equipe multiprofissional têm sido essenciais para enfrentar a ansiedade e seguir confiante até o parto.
O debate promovido pelo hospital também marcou o lançamento de um projeto voltado especificamente ao cuidado psicológico de gestantes de alto risco. Desenvolvida pela psicóloga Fernanda Brandão, a proposta prevê a implantação do Pré-Natal Psicológico (PNP) no ambulatório da unidade.
O projeto busca identificar precocemente sintomas de ansiedade e depressão perinatal, além de oferecer acompanhamento contínuo às pacientes em situações de vulnerabilidade obstétrica, prematuridade e risco neonatal. A iniciativa pretende fortalecer o vínculo entre mãe e bebê, preparar emocionalmente as gestantes para o parto e para possíveis internações em UTI Neonatal, além de garantir suporte também no período pós-parto.
Segundo a psicóloga, o objetivo é reduzir crises emocionais durante internações e ampliar o cuidado psicossocial dentro da assistência materno-infantil já oferecida pelo hospital.



