Do cortejo às escadarias: Ilhéus celebra São Sebastião entre tambores e águas

Crônica-reportagem por Anna Karenina MTB-4085

Às vésperas do dia de São Sebastião, padroeiro de Ilhéus, o dia 17 de janeiro de 2026, acordou luminoso. O contraste entre o azul claro das águas cintilantes do mar, com as nuvens carregadas, desenhavam um horizonte bonito, enquanto passava pelo viário da Ponte Jorge Amado e o Morro de Pernambuco se desvelava na paisagem.
Ao sair apressadamente de casa, o objetivo era alcançar o cortejo da tradicional lavagem das escadarias da Catedral de São Sebastião.

No caminho, imagens da levada do afoxé dos Filhos de Gandhy saltavam nos pensamentos, cuja concentração se dava no antigo Sindicato dos Estivadores de Ilhéus, às margens da Baía do Pontal, na Avenida Dois de Julho.

A devoção a São Sebastião, em Ilhéus, nasce de camadas profundas da nossa história. Registros apontam os povos indígenas de Olivença e os estivadores como protagonistas desse culto. Invocado contra a peste, a fome, a guerra e os males repentinos, São Sebastião também tornou-se amparo para os homens do cais, fortes do corpo e da fé, que encontraram nele proteção e esperança.

Do sincretismo, devoção católica, à fé íntima e celebração coletiva, a tradição se consolidou na lavagem das escadarias da Catedral, hoje símbolo de pertencimento e identidade de Ilhéus. Um lugar de devoção, reencontros e celebração.

No desembarque da Praça da Catedral, os passos se apressavam para chegar ao cortejo, atravessando a Rua Coronel Paiva. Foi quando no início da Rua Eustáquio Bastos, me envolvi pelo som da Orquestra Gongombira, conjunto genuinamente ilheense, que fazia vibrar tambores e danças com levadas ancestrais, embalando nossos corpos e memórias com o axé das antigas. Uma oportunidade, sem dúvidas, para projetar para as presentes e novas gerações os fundamentos da cultura baiana, o ritmo e o axé raiz.

Famílias, crianças, jovens, ilheenses, turistas e visitantes seguiam o embalo, a maioria, trajados em tons claros, em um clima de alegria, leveza e celebração.

Durante todo o percurso, a presença institucional foi perceptível e organizada. A Polícia Militar da Bahia, a Guarda Civil Municipal e as equipes da Sutran acompanharam o cortejo com atenção e cuidado, garantindo a fluidez do trajeto, a segurança dos participantes e o respeito ao espaço urbano, permitindo que a festa acontecesse com tranquilidade e organização.

Após a Avenida Dois de Julho, Rua Eustáquio Bastos e a Praça Cairu, o cortejo percorreu a Rua da Linha, entrou pela Avenida Soares Lopes e passou pela Praça Castro Alves, até alcançar a Catedral. Em meio ao trajeto, os Filhos de Gandhi traziam de Salvador para Ilhéus os ritmos da capital, criando uma ponte cultural que reafirma nossa condição, a de sermos todos filhos da Bahia.

Pelo caminho, encontrei personas da vida pública: o prefeito de Ilhéus, Valderico Júnior, acompanhado da primeira-dama, Dra. Thaís Paula; a vice-prefeita Wanessa Gedeon; a assessora do governador Jerônimo Rodrigues, Adélia Pinheiro; o suplente de senador e ex-deputado federal Bebeto Galvão; e o vereador Maurício Galvão. Em meio a tantos encontros, algumas ausências também foram sentidas. Ainda assim, o cortejo seguiu seu fluxo.

Uma chuva fina começou a cair, quase um afago, uma carícia sob a pele umedecida pelo calor, ajudando a refrescar e a lavar, também, as escadarias. Assim como a chuva é bênção, que também o sejam os nossos dias.

Ao chegar à Praça da Catedral, a efervescência cultural estava ali. A atmosfera unia fé, devoção, festa e homenagem a São Sebastião. Diante das escadarias e das portas da Igreja abertas, enquanto registrava imagens, algo genuíno foi sentido: a sensação de estar em casa. As pessoas estavam à vontade, celebrantes e presentes. Roda de capoeira, dança e uma quantidade expressiva de gente vivenciando o momento.

Enquanto isso, as baianas, com suas saias rendadas, seus colares bonitos e coloridos de contas, as escadas subiam. Nas mãos, vassouras e água de cheiro, para a tradicional lavagem, num gesto de renovação. Um lembrete refinado e muito sutil: purificar o chão para seguir adiante. Limpar os degraus para alcançar o alto.

Os Filhos de Gandhi se aproximaram, o trio se posicionou na lateral da praça, enquanto a percussão da Orquestra Gongombira ressoava bonita pelas imediações do Vesúvio e do Teatro Municipal. Cultura, ritmos em ascensão.

Ficou demonstrado que com ampla divulgação e articulação, a Prefeitura de Ilhéus, em parceria com a imprensa e os agentes culturais, reafirma o compromisso de promover a cidade como um destino vivo, turístico e acolhedor. Que seja durante todo o ano. Uma cidade que celebra, cuida, protege e reúne pessoas em torno da fé, do respeito, da cultura e do encontro.

Com uma água de coco para refrescar, defronte ao Teatro, o momento pediu contemplação. Um cortejo plural se expressou, atravessando o tempo para se renovar a cada ano. Um convite à cultura, à democracia, à fé e à devoção ao nosso santo padroeiro, São Sebastião.

E se Jorge Amado dizia que ser baiano é um estado de espírito, ser ilheense é, sem dúvida, um estado de alegria.

*Jornalismo literário e foto por Anna Karenina MTB-4085, com exclusividade para a Folha da Praia.

Assuntos abordados no último mês

Procurando por um assunto específico?

Faça aqui sua pesquisa e encontre o artigo ou publicação que procura.