A divulgação do laudo que não identificou DNA de Thierry Lima da Silva nas vítimas nem nas facas apreendidas como armas do crime trouxe um novo desafio para a investigação do assassinato de três mulheres na Praia dos Milionários, em Ilhéus. A informação, que chegou ao público nesta semana, levanta questionamentos sobre a força das provas e os próximos passos da polícia e do Ministério Público.
Para a advogada Manoela Ribeiro, a ausência do material genético é um elemento de peso, mas não encerra a apuração. “A ausência do DNA do suspeito nos corpos e objetos é um fator crucial, mas não necessariamente fatal para a investigação. O impacto imediato é que a principal prova técnica que conectaria o suspeito diretamente à cena do crime, de forma irrefutável, não existe. Isso enfraquece o caso do Ministério Público, pois uma das evidências mais fortes não se confirmou”, explicou.
Segundo ela, em um julgamento essa ausência pode ser usada pela defesa para reforçar a tese de que o réu não estava no local ou não teve contato com as vítimas. “No entanto, a investigação é um quebra-cabeça com várias peças; o DNA é apenas uma delas. Outras evidências, como digitais, câmeras de segurança, testemunhas, registros de celular ou outras provas circunstanciais, se tornam ainda mais importantes”, acrescentou.
Com a prova genética descartada, a estratégia das autoridades precisa ser redirecionada. Manoela detalha que os próximos passos incluem “aprofundar a investigação circunstancial, analisando registros telefônicos para verificar se ele esteve na área no horário do crime, examinar transações financeiras ou comunicações que possam indicar um motivo e buscar novas testemunhas”. Ela destaca ainda a necessidade de reavaliar as evidências já coletadas: “É fundamental que a perícia reavalie todos os itens e corpos, procurando por outras evidências biológicas, como suor, saliva ou impressões digitais. Às vezes, o material genético pode estar degradado ou não ser suficiente para um resultado conclusivo”.
Outro ponto essencial é a análise da confissão feita por Thierry Lima da Silva, que assumiu os homicídios. “Se houver uma confissão, o foco se move para provar que ela foi voluntária, precisa e verídica. Eles precisam verificar se o suspeito tem informações sobre o crime que apenas o autor poderia saber, como detalhes do local, a dinâmica dos fatos ou a localização de objetos”, observou a advogada.
Apesar de ter grande peso, a confissão não é definitiva. “A confissão tem um valor significativo no processo penal, mas sua força depende de outros fatores. Uma confissão sem corroboração por outras provas é frágil e pode ser questionada. Isso porque uma pessoa pode confessar um crime que não cometeu por várias razões, como pressão policial, proteção a terceiros ou até mesmo desequilíbrio mental”, explicou.
Manoela lembra que, no Brasil, a lei exige que a confissão seja confrontada com outras provas. “O juiz não pode basear sua decisão apenas nela. Se o suspeito confessou e a confissão foi detalhada e cheia de informações precisas, ela se torna mais forte. No entanto, se o DNA diz que ele não esteve lá, a confissão e as provas circunstanciais devem ser muito convincentes para superar a ausência da prova genética”, pontuou.
Para a advogada, a ausência de DNA é “um obstáculo considerável para a acusação, mas não o fim da linha”. Ela conclui que o caso se torna mais complexo e exige um trabalho minucioso para reunir evidências capazes de sustentar a denúncia. “A confissão é uma peça valiosa, mas sua credibilidade será posta à prova e dependerá de quão bem ela se alinha com as demais evidências do processo. O desafio, agora, é construir um caso sólido sem a ‘prova-rainha’ que o DNA poderia oferecer.”


