Roda de Timbau conecta Ilhéus e o Candeal em encontro de artistas e destaca a ancestralidade da música baiana

Foto: Murilo Calazans

Na tarde do dia 8 de abril, a Praça do Teatro Municipal de Ilhéus deixou de ser lugar de passagem para se tornar um espaço de encontro musical. O movimento Stilo Timba encontrou a Roda de Timbau do Candeal, unindo Ilhéus e Salvador em uma experiência que reuniu músicos, apreciadores, e fez pulsar o centro da cidade. Dos ritmos que vão do Olodum à Timbalada, a roda de timbau também atravessou outras sonoridades e incorporou versões percussivas de músicas de ícones como Michael Jackson.

O idealizador do Stilo Timba, Danilo Leitte, trouxe para a capital do cacau o músico Elbermario Rodrigues, referência da percussão baiana, com trajetória construída no Candeal, junto à Timbalada, ao lado de Carlinhos Brown, e integrando a banda de Ivete Sangalo há 13 anos. Uma conexão Ilhéus–Salvador que conta história.

A vontade do ilheense Danilo Leitte de levar a música percussiva para os centros da comunidade de Ilhéus, e do mundo, efervesce desde 2008, quando idealizou e criou o movimento Stilo Timba, que ganhou forma em praça pública em 2023, após um momento decisivo em sua trajetória.

Danilo relembra que o projeto nasce de uma inquietação antiga. “Sempre vivi da música. Mas, em 2015, eu estava desiludido e queria parar. Já estava na ideia de procurar outra profissão. Não aguentava mais. Foi quando, no dia do meu aniversário, minha amiga Ilse me presenteou com a inscrição para concorrer à seleção que Carlinhos Brown lançou para músicos do Brasil tocarem com ele no Carnaval de Salvador. Passei para fazer a audição e, com a notícia da aprovação, fui chamado para tocar dois dias com Carlinhos Brown no Bateria de rua da Timbalada e na Festa de Iemanjá, no dia 2 de fevereiro de 2016”.

Essa experiência reacendeu no percussionista a chama de viver da música. “Foi aí que nasceu minha amizade com Elbermario. Essa é uma história muito bonita”.

Em 2023, o Stilo Timba promoveu a primeira edição do projeto em Ilhéus no formato de roda de timbau, colocando em prática o sonho idealizado em 2008. Em 2024, a conexão musical entre os regentes se materializou com a primeira edição do encontro entre a Roda de Timbau do Candeal e o Stilo Timba.

“Esse movimento é coletividade. Quero que as pessoas entendam que a música é amor. A gente tem que se unir. É o tambor que faz a Bahia. E por que não fazer essa conexão, mostrando isso através de Ilhéus, da Terra do Cacau, por meio do tambor?”, reflete Elbermario, ao relatar sua conexão entre cidades, estados e continentes por meio da música percussiva.

De acordo com Danilo Leitte, o objetivo da iniciativa é reunir músicos, fortalecer a cultura, agregar pessoas, descobrir talentos e transformar vidas.

A edição deste ano marcou a retomada do projeto após um intervalo em 2025 e consolida um movimento que já atravessa mais de uma década entre idealização e prática. Em Ilhéus, esta foi a terceira edição do Stilo Timba em praça pública e a segunda em conexão direta com a Roda de Timbau do Candeal, iniciativa que existe em Salvador desde 2019.

O tambor cura

Elbermario explica que os ritmos executados na roda partem das claves do candomblé, dos toques de rum, pi, lé e gan, e se desdobram em criação contínua. “A gente cria a partir disso. O tambor vem dessa base”, diz.

Mais do que técnica, há uma filosofia: “O tambor cura, o tambor é terapia, o tambor é amor. Estou muito feliz porque parece que é uma guerra vencida. Isso aqui vai repercutir muito”.

Essa dimensão espiritual e cultural atravessa o projeto e encontra raízes na cena ilheense.

Ilhéus: território pulsante, música do mundo

Para o músico Eddy Oliveira, que também participou da roda de timbau, o encontro evidencia uma característica histórica da cidade: a força de sua produção cultural, especialmente marcada pela percussão. “A música percussiva afrolatina mora muito na veia do povo e do músico ilheense”, destaca.

Na leitura do artista, Ilhéus reúne uma diversidade sonora que atravessa gêneros e constrói uma identidade própria. Diferentes estilos coexistem e dialogam na cidade, criando um ambiente que alimenta a criação artística. “Ilhéus não é territorialmente grande como Salvador, mas é, artisticamente, tão pulsante quanto”, afirma.

Eddy também chama atenção para a importância do movimento como ponto de integração entre os músicos. Segundo ele, ainda existem distanciamentos entre cenas e linguagens, mas iniciativas como essa ajudam a aproximar. “Às vezes, a gente fica muito afastado, como se fossem alguns clãs… e aqui tem muita referência”, pontua.

Ao refletir sobre a conexão com Salvador, ele reforça o valor simbólico do encontro: “A gente tem muito talento na cidade, e essa fusão é uma forma de dizer: ‘a gente está aqui, fazendo arte’. Me sinto muito feliz por essa intervenção, por pessoas incríveis que têm enxergado isso e por essa galera que está nesse movimento de fazer tudo isso junto”.

 

Músicos em cena

Além dos regentes – o anfitrião Danilo Leitte e o convidado Elbermario Rodrigues – a roda reuniu um conjunto diverso de músicos, evidenciando a força coletiva do projeto. Estiveram presentes PH do Acordeon, Juninho do Acordeon, Marquito (teclado), Pop (guitarra), Jorge Béis (baixo), além dos bateristas Canibal, Marcelo Soares e Nadson Nascimento. A apresentação contou ainda com o vocal de Eddy Oliveira da banda Vida de Acesso, e participações especiais como Marinho, da Orquestra Gongombira, e Silvandira, do grupo de samba de roda. Outros músicos também integraram a formação, como João Elias (triângulo), Sandra Girassol (zabumba) e Thiago Pomba (percussão), além de dezenas de participantes percussionistas, reforçando o caráter aberto e agregador da iniciativa.

Próximo passo: ampliar

Danilo Leitte, que atua há anos como percussionista e educador musical em Ilhéus, projeta ampliar a recorrência dos encontros na cidade, com circulação por bairros e comunidades, fortalecendo a base local.

Com trajetória iniciada ainda na infância, o músico também desenvolve um trabalho contínuo de formação por meio de aulas de percussão, com passagens por instituições de ensino e projetos ativos, como no Instituto Nossa Senhora da Piedade. À frente do Stilo Timba, mantém abertas as portas para novos aprendizes e interessados na linguagem percussiva. Quem deseja acompanhar o trabalho, buscar informações sobre as aulas ou apoiar a iniciativa, pode entrar em contato pelo Instagram (@daniloleitte) ou pelo telefone (73) 98820-3066.

“Agradecemos aos músicos, ao público presente e a todos que contribuem para manter viva a proposta de fortalecer a cultura por meio da percussão e da ocupação dos espaços urbanos. Queremos levar essa alegria a mais pessoas, com encontros contínuos. Os incentivos e apoios são fundamentais para a continuidade do projeto”, reforçou.

Apoio e realização

A realização da Roda de Timbau 2026 contou com o apoio de parceiros, entre eles a Prefeitura de Ilhéus, Amanda Cristinne, Bruno Som Eventos, CD Tintas e Materiais de Construção, Forrozão da Samarica, Barrakítika, Grupo Vesúvio, Trilha Fé, Pizza Super Prime, Barriga na Brasa, Espaço Psi Ilse Araújo, Dona Gel, Axé Café e Sauce Produções.

Um estado de alegria – E se Jorge Amado dizia que ser baiano é um estado de espírito, ser ilheense, e com a percussão de iniciativas como essa, então, é um estado de alegria.

Por Anna Karenina MTB-BA 4085

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