Da crise à vitrine global, como o cacau brasileiro virou símbolo de negócios, turismo e inovação

No início dos anos 1990, quando o Brasil dava os primeiros passos rumo à abertura comercial, o cacau atravessava um dos períodos mais difíceis de sua história. A praga da vassoura de bruxa devastava plantações no sul da Bahia, reduzia drasticamente a produção e colocava em risco uma cadeia econômica centenária. O cenário era de retração e incerteza. Foi nesse ambiente adverso que começou a se desenhar uma transformação profunda na forma como o cacau brasileiro seria visto pelo mercado nacional e internacional.

À frente desse movimento está o empresário baiano Marco Lessa, CEO da MVU Empreendimentos, um dos principais responsáveis por reposicionar o cacau como ativo estratégico, capaz de gerar valor agregado, atrair turismo e fortalecer identidades territoriais. Sua trajetória une visão de mercado, comunicação e uma leitura precisa do potencial que o fruto ainda guardava, mesmo em meio à crise.

Nascido em Guanambi, no alto sertão baiano, Marco Lessa chegou ainda jovem a Ilhéus, cidade historicamente ligada à cultura cacaueira. Filho de mãe professora e pai bancário, optou pela publicidade, formação que se mostraria decisiva para seu futuro. Nos anos 1990, duas experiências ampliaram seu olhar sobre o setor. A visita a Gramado, então conhecida como Terra do Chocolate, e a participação na equipe de produção local da novela Renascer, da Rede Globo, gravada em fazendas de cacau da Bahia. O contraste entre o simbolismo do fruto e a crise vivida pelos produtores revelou uma oportunidade pouco explorada.

Mesmo com a cadeia produtiva fragilizada, Lessa apostou na reconstrução. No fim da década de 1990, fundou a MVU Empreendimentos com foco em eventos e negócios, buscando aproximar produtores, mercado e consumidores. O marco dessa virada ocorreu em 2009, com a realização da primeira edição do Chocolat Festival, em Ilhéus. A estreia foi modesta, com apenas 13 estandes, mas carregava um propósito claro de valorizar o chocolate brasileiro. O crescimento foi rápido e consistente.

Atualmente, o Chocolat Festival é considerado o maior evento do segmento na América Latina. São 44 edições realizadas no Brasil e no exterior, reunindo mais de 500 marcas e cerca de 350 expositores por edição, além de produtores, chocolateiros, chefs e pesquisadores. O público acumulado ultrapassa 1,2 milhão de visitantes. A relevância dessa trajetória rendeu a Marco Lessa reconhecimento nacional, com três indicações à lista dos cem empresários mais influentes do agronegócio brasileiro, elaborada pela revista Agroworld.

A expansão do projeto não se limitou ao chocolate. Com a percepção de que o Brasil poderia apresentar ao mundo outros produtos de origem, ligados à agricultura familiar e à identidade dos territórios, surgiu o Origem Week. O evento ampliou o escopo ao incluir itens como café especial, castanha do Pará, guaraná e charutos, criando uma plataforma voltada a negócios, cultura e promoção regional. O projeto soma edições na Bahia, em Brasília, Altamira e também no exterior, com passagens por Portugal e Bélgica.

A internacionalização tornou-se um dos pilares da atuação de Marco Lessa. Todos os anos, ele lidera Missões Internacionais voltadas à valorização da origem, da sustentabilidade e da qualidade do cacau e do chocolate brasileiros. As ações conectam produtores, chefs, pesquisadores e compradores internacionais, com forte presença da Bahia e do Pará, estados responsáveis por mais de 80 por cento da produção nacional.

A mais recente missão ocorreu em Paris, durante o Salon du Chocolat 2025, quando o Brasil foi recebido como País de Honra. A delegação nacional, composta por produtores, fabricantes e autoridades, abriu diálogos comerciais que resultaram em cerca de 5 milhões de euros em potenciais negócios. Para 2026, a MVU planeja novas incursões estratégicas na Europa e nas Américas.

Além do impacto econômico, essas iniciativas contribuem para reposicionar o Brasil no mapa do turismo de negócios e do turismo gastronômico. Roteiros como a Estrada do Chocolate, na Costa do Cacau baiana, e a Rota Transamazônica, no Vale do Xingu, no Pará, passaram a integrar experiências que combinam produção, cultura e visitação. Fazendas abertas ao público, processos de cultivo e colheita, degustações e turismo rural fortalecem uma ampla cadeia produtiva e beneficiam diretamente comunidades locais.

Nesse novo contexto, a Bahia desponta como protagonista. Líder em exportações e segundo maior produtor de cacau do país, o estado deixou de atuar apenas como fornecedor de matéria prima e avançou no beneficiamento completo do fruto. Chocolate, manteiga, cacau em pó, nibs, mel de cacau e aplicações nos setores cosmético e farmacêutico passaram a integrar a pauta produtiva.

O avanço do modelo bean to bar impulsionou o surgimento de centenas de marcas de chocolates finos, focadas em controle de qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade. Eventos como o Chocolat Festival e o Origem Week tiveram papel central nesse processo, ao conectar produtores a mercados, estimular inovação e projetar o cacau brasileiro no cenário internacional.

O que começou como resposta a uma crise profunda transformou-se em um caso emblemático de reposicionamento estratégico. Hoje, o cacau brasileiro deixou de ser apenas matéria prima e passou a representar experiência, cultura, turismo e desenvolvimento econômico, com impacto direto na imagem do Brasil no mundo.

Assuntos abordados no último mês

Procurando por um assunto específico?

Faça aqui sua pesquisa e encontre o artigo ou publicação que procura.